19 Novembro 2009

Fando e Lis


(Fando y Lis – 1968 – México)

Sinopse:
Fando, um jovem atormentado por seu passado, e Lis, uma moça frágil e paralítica, formam um estranho casal que vaga por um mundo pós-apocalíptico em busca da misteriosa cidade de Tar, onde eles acreditam que poderão viver uma vida perfeita.

Crítica: Dirigido pelo cineasta, ator, escritor, autor teatral e de histórias em quadrinhos, filósofo e especialista em tarô Alejandro Jodorowsky, Fando e Lis é o primeiro longa metragem do diretor chileno. Lançado em 1968 no Festival de Acapulco, o filme foi recebido com estranheza pelos mexicanos, que eram acostumados a um cinema leve de formato tradicional. Tais adjetivos não podem de forma alguma ser aplicados a Fando e Lis: são 93 minutos de um labirinto de sonhos e pesadelos do casal-título, que lutam contra as lembranças de traumas do passado e que por causa deles mostram os medos, ânsias e doçuras da alma humana, assim como o egoísmo e a maldade.


Fando e Lis é baseado na peça infantil de Fernando Arrabal, autor de teatro e amigo de Jodorowsky. O diretor construiu o roteiro a partir de suas lembranças e impressões sobre peça, o que torna esta adaptação por si só onírica. Acrescenta-se a isso o gosto de Jodorowsky ao misticismo e ao surrealismo, sua marca registrada. A atuação intensa de Sergio Kleiner como Fando e a beleza de Diana Mariscal como Lis dão o tom certo à trama. Merece destaque também a trilha sonora, com algumas doces e melancólicas canções infantis cujas entrelinhas escondem questionamentos metafísicos.


Quanto à estética, o trabalho de Jodorowsky já aparece com bastante consistência nessa sua obra inicial no cinema. A fotografia em preto-e-branco e a iluminação esmerada são utilizadas muito bem, dando peso adicional ao drama do casal e às locações desoladoras. A edição é ágil e completamente inovadora para a época, abusando de ângulos inusitados e cortes rápidos e secos. O melhor exemplo disso tudo são as cenas do casal no cemitério (num momento tragicômico) e quando Lis é deixada sozinha em uma cratera.


Veredicto: Por conta de um desentendimento com o produtor Allen Klein, os filmes de Jodorowsky ficaram fora dos circuitos de exibição por décadas. Existiam apenas sessões clandestinas com cópias feitas a partir de VHS que o próprio diretor cedia “por debaixo dos panos”. Isso ocorreu até recentemente, quando Klein e Jodorowsky se reconciliaram e as películas puderam ser relançadas em dvd com melhor qualidade de som e imagem, incluindo-se aí Fando e Lis. Portanto, nem preciso dizer que aproveitar a oportunidade de assistir a um filme de um dos cineastas latino-americanos mais intrigantes já surgidos é uma obrigação para todo bom cinéfilo, né?

12 Novembro 2009

meat puppets II, faixa a faixa


Antes de falar sobre o II, é preciso entender um pouco da trajetória do Meat Puppets. A banda nasceu num subúrbio de Phoenix, Alabama em 1980. Curt Kirkwood (vocal e guitarra), seu irmão Cris (baixo) e Derrick Bostrom (bateria) já não eram menininhos, mas tinham uma atitude punk e curtiam um rock sujão. Porém, não ignoravam a música country, o bluegrass e nem as influências de bandas mais antigas como Grateful Dead e Creedance Clearwater Revival.

De início eles confundiam a platéia com a mistura inusitada de gêneros e ganharam uma ou outra cusparada do público nos shows destinados aos punks “tradicionais”. Quando os Puppets ligaram o “foda-se”, eis que surgiu o álbum II. O disco, cuja bela arte da capa foi feita pelo próprio Curt, era uma mistura surrealista e levemente chapada de tudo que ele, Cris e Derrick gostavam, e não pretendia se encaixar em nenhuma categoria musical, de forma que o som dos cabeludos era até bem punk em atitude e barulho.


Meat Puppets II incia com Split myself in two. Trata-se de uma salada tresloucada de punk rock e country com uma letra bem humorada baseada no conto de fadas germânico Rumplestiltskin, acompanhada de um instrumental cheio de energia que de cara deixa claro que este segundo álbum do Meat Puppets é tudo menos uma continuidade de seu debut. Ela é seguida pela instrumental Magic Toy Missing, em que o country dá lugar a uma levada especificamente mais bluegrass.

Logo depois, Lost impressiona por sua letra bela e reflexiva que quase faz o ouvinte ignorar as desafinadas de Curt Kirkwood. Plateau é a música seguinte e um dos pontos altos do disco. A canção é mais conhecida por ter feito parte do repertório do acústico do Nirvana em 1993, e ouvindo-a no álbum original é possível perceber o quando a banda de Seattle se esforçou para fazer uma versão bem próxima da dos Meat Puppets. Nada mais justo, pois a música não necessita de aditivos.


Acrescentando psicodelia ao punk-rock-country dos Puppets, eis que surge a instrumental Autora Borealis. Com uma levada lenta e hipnótica, a canção é uma verdadeira viagem mental pelos desertos do Arizona. Enquanto ela parece a trilha sonora de um sonho, We're here se assemelha a um despertar, começando baixinha e ficando intensa aos poucos. A letra novamente é um dos destaques da música, um verdadeiro flerte com o existencialismo e com quantidades consideráveis de ácido.

Continuando no mesmo clima, a super-mega-country Climbing diverte por seu instrumental caipira contrastar tanto com a letra ora sem sentido, ora filosófica. Só mesmo Curt para cantar de maneira convincente versos como time, time, it’s so sublime/ well they say it’s non-existent/ but it’s playing with my mind/ and phone calls don’t cost a dime/ in the caverns of your feelings/ where the sun will never shine.


A louca New gods dá continuidade ao álbum. Entrando num clima completamente diferente, ela é pesada, rápida, barulhenta e a letra é completamente bizarra. Podreira total, no bom sentido! Já Oh, me, que também fez parte do acústico do Nirvana com Kurt Cobain se esforçando loucamente para atingir o timbre de Curt Kirkwood, possui ecos de Grateful Dead em sua melhor forma. A canção oferece mais uma chance de fechar os olhos e ser transportado paras os desertos e vales do sudoeste.



Com um clima bem mais sombrio, Lake of fire confere peso de maneira diferente ao disco. O vocal arrastado e a letra mórbida que fala sobre céu, inferno, anjos e demônios é sem dúvida uma das músicas mais conhecidas da banda.



I’m a mindless idiot
vem em seguida e acalma um pouco os ânimos com a leveza de sua batida, antes do volume aumentar de novo com a divertida The Whistling song, que tem cara de crédito final de road movie e faz jus ao nome porque, de fato, não tem como não querer imitar o assobio que tem no refrão. E assim termina um dos álbuns mais clássicos e influetnes do rock, que fez a cabeça não só do Nirvana, mas de bandas como Soundgarden e Dinousaur Jr.

11 Novembro 2009

mulheres que nunca fui: marguerite duras


Uma francesa nascida no Vietnam que se destacou por todos os meios em que passou com a sua arte e temperamento forte. Marguerite Duras é mais uma mulher que nunca fui, mas que ainda hei de ser!

Marguerite Donnadieu nasceu em 4 de abril de 1914 em Gia-Dinh, na Indochina Francesa. Seus pais se mudaram da França para o local, que atualmente faz parte do Vietnam, acreditando na promessa de prosperidade na então colônia francesa. No entanto, dias de muitas dificuldades aguardavam Marguerite e sua família. Seu pai faleceu pouco tempo depois. Sua mãe permaneceu e criou os três filhos em meio à pobreza após alguns investimentos fracassados.

Não bastasse o período de vacas magras que nunca passavam na vida da adolescente Marguerite, ela ainda sofreu agressões da mãe e do irmão mais velho. Sem perspectivas, ela viveu um tórrido affair com um homem chinês rico e muito mais velho, com o qual podia fugir por alguns instantes do ambiente familiar instável e da pobreza. Esses foram acontecimentos cruciais quando Marguerite decidiu se tornar escritora, e foram descritos em obras como O amante (1984), seu livro mais conhecido e que virou filme pelas mãos de Jean-Jacques Annaud em 1992.



Aos 17 anos, a rebelde Marguerite se muda para a França, onde estuda Direito para logo depois abandonar o curso a favor das Ciências Políticas. Após se formar, torna-se membro ativo do Partido Comunista Francês e da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Mais ou menos nessa época, Marguerite muda seu sobrenome para Duras em homenagem à vila em que seu pai morava. Em 1939, ela se casa com Robert Antelme, escritor que também está envolvido com a Resistência e que por isso é deportado. Foi um duro período, mas Robert escapa milagrosamente das mãos da Gestapo. O acontecimento inspirou alguns escritos de Marguerite, em especial o livro de contos A dor (1985).


A criatividade de Duras aflora durante o pós-guerra. Ela lança seus dois primeiros livros, Os imprudentes (1943) e Vida Tranqüila (1944) nessa época. Inquieta, não se restringe apenas à literatura e escreve também argumentos para o cinema. Nasce daí o clássico do cinema francês Hiroshima Meu Amor (1961). Dirigido magistralmente por Alain Resnais, a história mostra uma atriz francesa que se envolve com um japonês enquanto reaviva as lembranças de sua paixão do passado por um soldado alemão durante a Segunda Guerra. Os diálogos profundos, poéticos, casam completamente com os suaves movimentos de câmera e com a beleza e melancolia das locações.



Duras finalmente realiza sua pequena vingança literária quando seu livro O amante ganha o prêmio Goncourt em 1984. Ela era aposta certa para receber o prêmio 30 anos antes, com a obra Uma barragem conta o Pacífico, o qual especula-se que só não tenha ganhado por causa das inclinações políticas da autora. Durante os anos 1980, ela causa mais um alvoroço ao se apaixonar e casar com Yann Andréa Steinnet, um homem 38 anos mais novo. Eles vivem juntos até 1996, ano em que Marguerite morre vítima de câncer.

Com seu jeito tempestuoso, Marguerite fez história numa época em que o papel da mulher na sociedade começava a se transformar e transcender o ambiente familiar, a moral e os valores de até então. Sua escrita apaixonada, sincera e questionadora era apenas um reflexo de sua personalidade, dedicando-se a temas como os amores, grandezas e misérias da condição humana. Poucas escritoras atingiram tal grau de empenho em suas obras e vidas.

09 Novembro 2009

Le Duchamp


Se você, assim como eu, tem um desejo secreto de tocar nas obras de arte expostas em museus e galerias, a dica de site dessa semana com certeza vai lhe agradar. Trata-se do site Le Duchamp.com, em que você vê a reprodução da escultura ready made Roda de bicicleta, do pintor e escultor francês Marcel Duchamp, com a diferença que você pode ficar mexendo na roda!

Ah, como são simples os prazeres da vida... Image Hosted by ImageShack.us

04 Novembro 2009

Tudo muda após o play!

O Coletivo Difusão iniciou hoje (4) as atividades do Cineclube Tudo Muda Após o Play! com a exibição do filme brasileiro Cama de Gato. Se você, assim como eu, perdeu a sessão de hoje, não se aperreie porque em todas as quartas do mês de novembro serão exibidas produções nacionais bem incomuns. Os filmes selecionados são: O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas (11/11); O homem que virou suco (18/11); e O bandido da luz vermelha (25/11).

Os participantes contribuem com a simbólica quantia de R$ 1,00 e ainda podem participar dos debates que ocorrem após as sessões, que começam sempre às 19h30 na sede do Coletivo Difusão, localizada na Av. Castelo Branco, 1111, Cachoeirinha (Próximo ao T2 e quase esquina com a Rua Manicoré).

Confira a programação em detalhes logo abaixo:


11/novembro – O rap do pequeno príncipe contra as almas sebosas (2000, 75 min.): Os jovens Helinho e Garnizé são as personagens principais deste documentário. O primeiro atende pelo apelido de Pequeno Príncipe e é acusado de ter matado 65 bandidos emcamaragibe, Permanbuco. Já Garnizé é um rapper e líder comunitário que utiliza aarte para enfrentar os problemas da periferia.

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18/novembro – O homem que virou suco (1981, 90 min.): Deraldo é um poeta nordestino que sobrevive em São Paulo graças a seus escritos. Ele é confundido com o operário de uma multinacional que assassinara seu patrão numa festa e agora precisa lutar contra a injustiça e opressão social.

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25/novembro – O bandido da luz vermelha (1968, 92 min.): Jorge é um assaltante que utiliza estranhas técnicas para roubar casas luxuosas. Ele intriga a polícia com seus hábitos desconcertantes, tais como sempre usar uma lanterna vermelha e manter longos diálogos com suas vítimas, além de arquitetar fugas ousadas e gastar o dinheiro dos roubos de forma extravagante.

03 Novembro 2009

The Shangri-las


The Shangri-las foi uma das bandinhas de garotas mais legais dos anos 1960. Com várias canções sobre corações partidos e uma batida cativante, as irmãs Mary e Betty Weiss se juntaram às gêmeas Marge e Mary Ann e lançaram suas primeiras gravações nos idos de 1964 quando tinham apenas 15 anos. No começo, a banda não tinha nome, até que elas começaram a se apresentar como Shangri-las, nome de um restaurante do Queens (NY), bairro em que as garotas moravam.

O primeiro grande sucesso das The Shangri-las nasceu de uma inusitada aposta. O compositor George Morton foi desafiado pelo também compositor Jeff Barry a fazer um hit. Morton então procurou as quatro meninas do Queens e lhes preparou um presente chamado Remember (walking in the sand), uma triste canção sobre abandono e saudade. A música não poderia ter combinado mais com a voz melancólica de Mary Weiss, a vocalista principal da banda.


Remember (walking in the sand) se saiu bem com o público, alcançando o número 5 nas paradas americanas. Aproveitando o momento de sucesso, Morton se juntou a Barry e a sua esposa, Ellie Greenwich, para compor a música que seria o maior sucesso das The Shangri-las até hoje: Leader of the pack.

O vocal atordoado de Mary e o backing vocal impecável das irmãs eram a moldura perfeita para a história da moça de família que se apaixona por um motoqueiro rebelde. Durante as gravações, o engenheiro de som Joe Veneri chegou mesmo a levar sua motocicleta ao estúdio para gravar o ronco do motor que se ouve durante a música. A canção foi lançada em 1964 em novembro alcançou o número 1 na parada da Billboard, além de chegar ao número 1 nas paradas australianas e de figurar três vezes nas paradas britânicas (em 1964, 1972 e 1976), um feito inédito até então para uma banda americana.


Com a banda no topo, as The Shangri-las chegaram a se apresentar com os Beatles e apareceram em programas de televisão populares na época, tais como o Hullabaloo, Shindig e o Hollywood a Go Go. Apesar disso, elas não mantiveram o sucesso; seus próximos lançamentos, Maybe e Out in the streets, alcançaram as posições 91 e 54 nas paradas, respectivamente.

Um novo sopro de sucesso aconteceu quando a banda lançou os singles de I can never go home anymore em 1965 e Past, present and future em 1966, apesar de nenhum deles chegar ao topo das paradas. As coisas novamente esfriaram para a banda, até que em 1968 ela se desfez. Mary Weiss se tornou decoradora de interiores, Betty se casou com o escritor Jeremy Storch, Mary Ann morreu em 1971 e sua irmã Marge morreu de cancêr em 1996.

Apesar do curto período de sucesso, as The Shangri-las marcaram a música dos anos 1960 por se diferenciarem das mocinhas doces que compunham as bandas femininas da época. Elas tinham fama de duronas e por trás de suas baladas sobre o primeiro amor se escondia uma faceta mais sinistra e rebelde. Não por acaso, elas influenciaram bandas punk dos aos 1970 como Blondie e New York Dolls, além de bandas mais recentes como Sonic Youth, Belle and Sebastian e Superchunck.

página secreta

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